4 de junho de 2010

Sentidos

Eu não tenho mais sentidos.
Todos eles foram deturpados.
Eu não vejo direito.
Eu não ouço nada.
Nada tem sabor.
E o que quer que essa abstinência tenha a me acrescentar eu renego, eu não quero.
Nada vale isso.
Não adianta esfregar os olhos, não adianta água fria.
Pareço incapaz de despertar.
Como se não tivesse realmente sentidos.
Eu não aguento mais essa hibernação.
Quero algo concreto e puro em minhas mãos.
Quero algo calmo e saboroso em meus lábios.
Quero algo imenso e indolor no meu coração.
Quero meus sentidos atentos.
Quero meus olhos despertos

3 de junho de 2010

A Sombra

Qual será a sombra que cobriu o homem?
Essa sombra que muda as cores dos prédios e das janelas,
que muda a cor dos olhos das pessoas.
Ecoa no ar o grito,
da mãe,
do filho,
o grito mais aflito.
É uma dor da qual todos desviam os olhos.
É um anjo que não sabe voar,
é uma mancha de sangue no chão, que a chuva não consegue apagar.
É a falta ou o excesso de atitudes,
É o medo,
o apartheid calado de uma raça
de uma única raça,
de um único ser,
o ser que é humano, ou que talvez tenha sido algum dia,
Essa sombra é o eudonismo daquele que tem que cuidar,
o abandono de quem deveria criar,
a dor de quem devia festejar...
O que será que o ser humano tem de tão venenoso?
Nenhum outro animal mata outro sem razão,
nem aniquila sua prória descendência.
O que temos de tão único e humano que nos faz tão não-naturais,
tão desiguais?
O que temos que nos tirou da simples e pura existência de ser animais?
A sombra é
uma queda,
uma mancha,
um tiro,
um choro,
uma poça de sangue...

O que aconteceu comigo?
Antigamente eu acendia fogueiras...
Hoje guardo pó de incenso,
Pó de sonhos.
Antes eu plantava margaridas
Hoje caminho deixando rosas pisadas pelo percurso
Antes eu apressava o tempo,
Hoje os ponteiros de todos os meus relógios giram em anti-horário
Antes eu gritava pelos amores e amigos,
Hoje meus sentimentos estão repousando em uma caixinha prateada.
Antes eu não suportava o ardor do meu sangue
Hoje tenho que esfregar as mãos para que corra
O que aconteceu comigo?
Quem vai saber,
Se até mesmo a vontade de procurar respostas se esvaiu.

2 de junho de 2010

Eu e As Palavras (Eu X As Palavras)

Eu não escrevo.
Eu torço palavras e as sangro, moldo-as para que elas digam o que quero.
Discuto com elas, brigo com elas. Temos uma pugna que já dura um tempo.
Às vezes sentamo-nos e tentamos nos entender.
Elas expôem seus pontos de vista. Eu empurro os meus como cápsulas através da garganta delas.
Algumas vezes dormimos juntas calmamente, tranquilamente.
Algumas vezes eu as seduzo, outras elas me corrompem.
Eu transo com elas, saboreio-as.
Eu vou com elas tomar um café, um sorvete...
Algumas vezes até mesmo marcamos um encontro.
Eu não escrevo.
Escrever é fazer as palavras deslizarem pelo papel,
Por enquanto eu travo um relacionamento com elas.
Me apaixonei subitamente por elas um dia,
talvez eu já até as ame.
Mas elas são tão difíceis de amar!
Por isso seguimos assim.
Nos amamos, nos batemos, nos odiamos, mas eu sempre as torço.
Eu machuco-as como elas me ferem,
E bebo o sangue delas com prazer.